domingo, 16 de outubro de 2011

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Mãe e o Monstro

Enquanto os filhos faziam uma cabana em vez de arrumar o quarto e pentear o cabelo, a mãe, que tentava colocar tudo em ordem para o almoço em família, se transformava em um ser verde e descabelado. Que mãe nunca se sentiu dentro do livro Mamãe Virou um Monstro, de Joanna Harrison (Ed. Brinque-Book)? Todas nós queremos ser a melhor mãe do mundo, mas manter a calma e a serenidade em todos os momentos é praticamente impossível. Até aí, tudo bem, o problema é que, mesmo sabendo disso, as mães se sentem culpadas quando colocam os filhos de castigo ou querem um tempo só para elas. Pior ainda: as mulheres se culpam até por não querer tê-los. Foi depois de atender a uma paciente que tinha dúvidas sobre a maternidade que a psiquiatra e psicanalista norte-americana Barbara Almond decidiu escrever o livro The Monster Within: The Hidden Side of Motherhood (O Monstro Interior: O Lado Oculto da Maternidade, em tradução livre). Amanda (nome fictício) estava com 35 anos e sua família queria que ela tivesse filhos, mas ela achava que a criança seria um monstro. Barbara, que já era mãe e hoje é avó de quatro crianças, ficou tão surpresa com essa sensação de sua paciente que resolveu pesquisar mais sobre esses sentimentos conflituosos da maternidade. Aos poucos, foi percebendo que o monstro de Amanda não era a criança, e sim ela própria, que se achava um alienígena por não querer ter um filho. Outras mulheres, já mães, se martirizam por ter sentimentos confusos pelos filhos. Em seu livro, a especialista mistura exemplos práticos com histórias da literatura clássica e contemporânea para explicar de uma maneira simples, didática e reconfortante por que as mães precisam aceitar que não vão amar seus filhos o tempo todo – e que isso é perfeitamente normal. Ela conversou com a CRESCER sobre como foi escrever o livro e sobre como também se sentia (e se sente) um monstro de vez em quando.
“Se você odeia seus pais, irmãos, cônjuges, amigos, colegas de trabalho, ou pessoas do sexo oposto, de outra etnia, religião e nacionalidade, você é considerado infeliz, irracional, fanático, difícil de lidar e até seriamente perturbado. Mas, se você odeia seus filhos, você é considerado monstruoso – imoral, anormal e perverso.” Barbara Almond, em trecho do livro The Monster Within: The Hidden Side of Motherhood

CRESCER: Como as pessoas reagiram ao seu livro? Houve muitas críticas?
Barbara Almond: Recebi algumas poucas críticas, uma delas na própria página da Amazon (site em que o livro é vendido) de uma terapeuta – e mãe – que dizia que o livro não contribuía em nada para a discussão, mas a maior parte das pessoas me deram retorno positivo e se identificaram com o que eu escrevi. Uma coisa interessante é que o livro foi recusado por muitas editoras. Meu agente literário estava muito empolgado e mandou o original para 20 ou 30 editores. Muitos disseram que estava bem escrito, que eu era qualificada, mas que seria muito perturbador para os leitores e por isso não poderiam publicá-lo. Finalmente conseguimos. E o que eu mais ouço é: “Que bom alguém ter escrito sobre isso. Nós todas nos sentimos assim e queremos saber que somos entendidas”.
 
C.: Você escreve o tempo todo sobre a ambivalência materna. Como ela se manifesta no dia a dia?
B.A.: A palavra ambivalência significa sentimentos confusos por alguém ou algo importante para você. Você pode ser ambivalente sobre seu trabalho, seu marido, seus amigos, seus filhos, seus pais. Porque tudo que é importante para você pode ser decepcionante, falhar ou acabar. Então, não é humanamente possível amar alguém ou algo o tempo todo e nunca ter sentimentos negativos. E isso é mais verdadeiro ainda quando se trata de filhos, porque há um conflito entre as necessidades das crianças e as dos adultos. Um exemplo: são duas da manhã, seu bebê tem três semanas, você o alimentou por volta das 23 horas e ele finalmente dormiu. Você está exausta e, de repente, ele começa a chorar, está com fome de novo. Você quer alimentar seu filho, cuidar dele, ele é tão pequeno e precisa de você, mas, ao mesmo tempo... Você está tão cansada! Isso não desperta uma confusão de sentimentos?
 
C.: Sem dúvida...
B.A.: Outra noite meu marido e eu estávamos tomando conta de dois dos meus netos e eles são crianças maravilhosas, sem dúvida, mas o mais novo não dormia de jeito nenhum. Ele queria que a sua mãe o colocasse na cama! E nós tínhamos planejado assistir ao Oscar na televisão, mas passamos a noite toda tentando acalmá-lo. Eu adoro meu neto, mas naquele momento eu só queria fechar a porta do quarto e assistir ao Oscar! É algo humano, não é realista esperar que você sempre, sempre, sempre vai ter paciência. Se você é realmente honesta consigo, vai ver que há momentos em que você preferiria tirar uma soneca, visitar um amigo, ir ao cinema. As mães não vão machucar seus filhos, matá-los, isso é muito raro. Elas só querem poder sentar por um minuto, colocar os pés para cima e relaxar.

C.: Há mães que não são ambivalentes ou todas elas vivenciam sentimentos opostos?
B.A.: Mesmo as melhores mães do mundo têm momentos ruins. Talvez uma mãe que tenha apenas um filho, que não dê trabalho algum, não se sinta assim, mas não acontece com muita frequência. Porque nem sempre a mãe vai querer o que o bebê quer. E não há uma criança que nunca teve um dia ruim e jogou comida no chão. Se você encontrar uma eu gostaria muito de conhecer!
 
C.: Você também sentiu a ambivalência materna?
B.A.: Sim, com certeza! E eu me senti péssima por causa disso. O livro foi uma forma de lidar com isso, eu me tornei tão consciente desse problema que, finalmente, depois de muito tempo, consegui colocar para fora, assim como outras mulheres. Na época eu fiz bastante terapia para falar disso.
 
C.: A criança também pode colaborar para o sentimento de ambivalência materna?
B.A.: Há crianças que são maldosas e fazem coisas desagradáveis, mas é uma minoria. Na maior parte das vezes, o que acontece é que a criança não consegue se controlar. Eu vejo pelo meu neto de 2 anos. Ele está naquela fase em que faz só o que quer. Na maior parte do tempo ele é uma criança adorável, mas ainda é um menino, tem só 2 anos! “Não! É meeeu!”, diz. E claro que isso é um pouco irritante para quem está perto dele naquela hora.

C.: No livro, você fala da pressão que a sociedade e a mídia colocam nas mães. De que forma isso pode atrapalhar as mulheres?
B.A.: A maior parte da pressão vem da mídia mesmo. Porque as mulheres estão tão interessadas em ser boas mães que qualquer coisa que fale sobre maternidade dá muito dinheiro. Por isso, infelizmente, há esse aspecto comercial também que reforça a necessidade de ser uma boa mãe. O padrão de criação dos filhos hoje é muito exigente e perfeccionista, tudo tem que ser extremamente correto. Não pode açúcar, não pode mamadeira, nada, e nem toda mulher é assim.
“Ser capaz de tolerar os sentimentos de amor e ódio, que aparecem em momentos diferentes da nossa vida, sem que um sentimento destrua o outro, é um sinal de boa saúde mental. Negar ou suprimir qualquer um dos dois leva a relacionamentos desgastados e rígidos, nos quais a pessoa não vive sua realidade emocional por completo.” Barbara Almond, em trecho do livro The Monster Within: The Hidden Side of Motherhood

C.: E o marido? Ele pode ajudar sendo mais presente e dividindo com a mãe as tarefas e os cuidados com os filhos?
B.A.: Se a mãe e o pai puderem concordar e não brigar por conta disso, ajuda muito. A criança precisa tanto do pai quanto da mãe, de maneiras diferentes, mas igualmente importantes. O marido não ajuda se ignorar algo que poderia fazer. Também não ajuda se ele interfere e entra em conflito com a mãe quando ela está administrando bem as coisas. O melhor que ele faz é tentar ajudar quando ela perde o controle, ou está muito chateada, irritada e exausta. Pais maduros e inteligentes, que se entendem, permitem que o outro tome as rédeas na situação algumas vezes.

C.: Como a mulher pode lidar com esse sentimento ruim no seu dia a dia?
B.A.: A mãe precisa se perdoar e não considerar isso um crime. O problema não é a ambivalência, mas, sim, a vergonha enorme que têm dos sentimentos negativos. A maioria das mães ama seus filhos boa parte do tempo, mas nenhuma mãe ama o seu filho o tempo todo. Se uma mulher está muito perturbada com a maternidade, ela deve fazer terapia. Se ela está apenas confusa, questionadora e impaciente, pode conversar com mulheres mais velhas, com profissionais como pediatras, enfermeiras, obstetras e outras mães, descansar um pouco, ter um tempo para ela... E também pode ler o meu livro, claro! Há muitas orientações lá.

The Monster Within: The Hidden Side of Motherhood (o Monstro Interior: o Lado Oculto da Maternidade, em tradução livre) não tem previsão de lançamento no Brasil, mas pode ser encomendado na www.amazon.com

domingo, 2 de outubro de 2011

A FELICIDADE ESCONDIDA (Inspetoria Salesiana de Bilbao-Espanha)



Um dia, no princípio dos tempos, alguns anjos maus se reuniram para fazer uma diabrura.
Um deles disse:
“Estava pensando que poderíamos tirar algo dos humanos, porém… O que?”
Depois de muito pensar, um deles respondeu:
“Já sei!, poderíamos tirar-lhes a felicidade… Porém, claro, o problema será onde escondê-la, para que não possam encontrá-la”.
Propôs o primeiro demônio:
“Vamos escondê-la em cima do monte mais alto do mundo…!”
… Ao que imediatamente discordou um outro:
“Não, lembra que eles têm força e vontade. Algum dia, alguém podería subir e encontrá-la, e se um a encontra, pronto! todos saberão onde está”.
Logo propôs outro:
“Então, vamos escondê-la no fundo do mar!”
E outro contestou:
“Não, lembra que eles têm curiosidade. Algum dia, alguém construirá algum aparato para poder baixar até o fundo e, então, a encontrará”.
Um outro deles disse:
“Escondamô-la em um planeta longe da Terra!”.
Disseram-lhe:
“Não, lembra que eles têm inteligência. Um día, alguém construirá uma nave para viajar para outros planetas e, então, a descubrirão”.
Um dos demônios havia permanecido em silêncio, escutando atentamente as propostas.
Analisou a cada uma delas… E, então, disse:
“Creio saber onde devemos colocá-la para que jamás a encontrem”.
Todos olharam-no assombrados e perguntaram ao mesmo tempo: “Onde?”.
“Esconderemo-la DENTRO deles mesmos… Estarão tão ocupados buscando-la fora que nunca a encontrarão”.
Todos ficaram de acordo e, desde então, sempre tem sido assim:

“O SER HUMANO PASSA A VIDA BUSCANDO A FELICIDADE SEM SABER QUE A LEVA CONSIGO.”