1. Deixar passar — deixar a questão em paz
2. Controlar-se — renunciar à punição
3. Esquecer — afastar da memória, recusar-se a repisar
4. Perdoar — o abandono da dívida
DEIXAR PASSAR
Para se começar a perdoar, é bom deixar passar algum tempo. Ou seja, é
bom
deixar a raiva secar, tirar umas férias do assunto. Isso ajuda a evitar
que fiquemos exaustas, permite que nos fortaleçamos por outros meios, que tenhamos
outras alegrias na vida.
Esse estágio é um bom treino para o abandono definitivo que mais
adiante advirá do perdão. Deixe a situação, a recordação, o assunto, tantas
vezes quantas for necessário. A ideia não é a de fechar os olhos, mas a de
adquirir agilidade e força para se desligar da questão. Deixar passar envolve
voltar a tecer, a escrever, ir até o mar, aprender e amar algo que a fortaleça
e deixar que o tema saia do primeiro plano por um tempo. Isso é bom e é
medicinal. As questões de danos passados irão atormentar a mulher muito menos
se ela garantir à psique ferida que lhe aplicará bálsamos medicinais agora e
que mais tarde tratará do assunto de quem provocou tal ferida.
CONTROLAR-SE
A segunda fase é a do controle, especificamente no sentido de
abster-se de punir; de não pensar no fato nem reagir a ele seja em termos
grandes, seja em termos pequenos. É de extrema utilidade a prática desse tipo
de refreamento, pois ele aglutina a questão num único ponto, em vez de permitir
que ela se espalhe por toda a parte. Essa atitude concentra a atenção para a
hora em que a pessoa se dirigir aos próximos passos. Ela não quer dizer que a
pessoa deva ficar cega, entorpecida ou que perca sua vigilância protetora.
Controlar-se significa ter paciência, resistir, canalizar a emoção.
Esses são medicamentos poderosos. Faça tanto quanto puder. Esse é um regime de
purificação.
Você não precisa fazer tudo; você pode escolher um aspecto, como o da
paciência, e praticá-lo. Você pode se abster de palavras, de resmungos
punitivos, de agir de modo hostil, ressentido. Ao evitar punições desnecessárias, você estará
reforçando a integridade da alma e da ação. Controlar-se é praticar a generosidade,
permitindo, assim, que a grande natureza compassiva participe de questões que
anteriormente geravam emoções que iam desde a ínfima irritação até a fúria.
ESQUECER
Esquecer significa afastar da lembrança, recusar-se a repisar um
assunto — em outras palavras, deixar de lado, soltar, especialmente da memória.
Esquecer não quer dizer entorpecer o cérebro. O esquecimento consciente consiste em
deixar de lado o acontecimento, não insistir para que ele permaneça no primeiro plano,
mas permitir que ele seja relegado ao plano de fundo ou mesmo que saia do palco.
Praticamos o esquecimento consciente quando nos recusamos a invocar o material inflamável, quando nos recusamos a mergulhar em recordações. Esquecer é uma
atividade, não uma atitude passiva. Significa não trazer certos materiais até a superfície, nem revirá-los constantemente, nem se irritar com
pensamentos, imagens ou emoções repetitivas. O esquecimento consciente significa a
determinação de abandonar a prática obsessiva, de ultrapassar a situação e perdê-la de
vista, sem olhar para trás, vivendo, portanto, numa nova paisagem, criando vida e
experiências novas em que pensar no lugar das antigas. Esse tipo de esquecimento
não apaga a memória; ele simplesmente enterra as emoções que cercavam a memória.
PERDOAR
Existem muitos meios e proporções com os quais se perdoa uma pessoa,
uma comunidade, uma nação por uma ofensa. É importante lembrar que um
perdão "final" não é uma capitulação e sim uma decisão consciente
de deixar de abrigar ressentimento, o que inclui o perdão da ofensa e a desistência da
determinação de retaliar. É você quem decide quando perdoar, é você quem resolve qual
é a dívida que você agora afirma não precisar mais ser paga.
Algumas pessoas optam pelo perdão total: liberando a pessoa de
qualquer tipo de reparação para sempre. Outras preferem interromper a reparação no
meio, abandonando a dívida, alegando que o que está feito está feito e que a
compensação já é suficiente. Outro tipo de perdão consiste em isentar a pessoa sem
que ela tenha feito qualquer reparação emocional ou de outra natureza.
Para certas pessoas, finalizar o perdão significa considerar o outro
com indulgência, e isso é mais fácil quando as ofensas são relativamente leves.
Uma das formas mais profundas de perdão está em dar ajuda compassiva ao ofensor
por um ou outro meio. Isso não quer dizer que você deva enfiar a cabeça no ninho da cobra, mas,
sim, ser sensível a partir de uma postura de compaixão, segurança e preparo.
O perdão é onde vão culminar toda a abstenção, o controle e o
esquecimento. Não significa abdicar da própria proteção, mas da própria frieza. Uma
forma profunda de perdão consiste em deixar de excluir o outro, o que significa
deixar de mantê-lo à distância, de ignorá-lo, de agir com frieza,
condescendência e falsidade. É melhor para a psique da alma restringir ao máximo o tempo de exposição às pessoas que são difíceis para você do que agir
como um robô insensível.
O perdão é um ato de criação. Você pode escolher entre muitas formas
de proceder. Você pode perdoar por enquanto, perdoar até que, perdoar até a
próxima vez, perdoar mas não dar outra chance — começa tudo de novo se
acontecer outro incidente. Você pode dar só mais uma chance, dar mais algumas
chances, dar muitas chances, dar chances só se... Você pode perdoar uma ofensa
em parte, pela metade ou totalmente. Você pode imaginar um perdão abrangente.
Você decide.
Como a mulher sabe que perdoou? Você passa a sentir tristeza a
respeito da circunstância, em vez de raiva. Você passa a sentir pena da pessoa
em vez de irritação. Você passa a não se lembrar de mais nada a dizer a
respeito daquilo tudo.
Você compreende o sofrimento que provocou a ofensa. Você prefere se
manter fora daquele meio. Você não espera por nada. Você não quer nada. Você está
livre para ir e vir. Pode ser que tudo não tenha acabado em “viveram felizes
para sempre”, mas sem a menor dúvida existe de hoje em diante um novo "Era
uma vez" à sua espera.
Fonte: Livro: Mulheres que correm com lobos.

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